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A origem da paixão.
A história de uma marca tão conhecida quanto Coca-Cola .
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"Nós temos que fazer uma máquina que mexa com as pessoas, assim que coloquem os olhos nela”.
William G. Davidson, vice-presidente de design da Harley-Davidson. |

1903. Milwaukee, estado de Wisconcin, Estados Unidos. Nos fundos
de um galpão o jovem desenhista Bill Harley e o engenheiro
William Davidson estão prestes a criar uma das marcas mais
desejadas do mundo dos últimos 102 anos.
Também sem saber, esta mesma marca, foi uma das percursoras
da grande maioria dos conceitos de imagem de marca que se tem notícia.
A marca de motocicleta mais desejada do mundo.
Comecemos por alguns fatos históricos. Em 1916 o presidente
dos USA, Wooddrow Wilson enviou “Black Jack” numa
Harley-Davidson para matar Pancho Villa na fronteira com o México.
A encomenda de 20 mil unidades para o US Army garantiu a sobrevivência
da marca durante a Depressão Americana. Na Primeira Guerra
Mundial, foi uma Harley-Davidson equipada com um side-car(aquele
carrinho que era colocado ao lado da moto), pilotada por um soldado
americano (uma pessoa comum, portanto) o primeiro veículo
aliado a entrar em solo alemão. Em 1921, no período
entre guerras, a Harley voltou as pistas e tornou-se a primeira
equipe a vencer uma prova de velocidade a mais de 100 milhas por
hora. Depois do ataque a Pearl Harbor especializou-se em produzir
motos para uso exclusivo militar. Na Segunda Guerra Mundial as Harley-Davidson
brilharam mais uma vez, cerca de 90 mil motocicletas de 750 cilindradas
foram entregues ao Exército Americano. Resistente e confiável
essas motos podiam ser adaptadas para quase tudo. Muitas cerragavam
um side-car equipado com metralhadoras.
Depois da guerra, os principais compradores das Harley´s foram
os ex-combatentes (alguma coisa semelhante com a propaganda boca-em-boca?).
À luz do marketing foi a Harley-Davidson a primeira a trazer,
mesmo sem querer, as bases da customização, do one-to-one,
da fidelização de marca, da força da opinião
e do desejo do cliente, dos atributos de marca, do merchandising,
do design, qualidade total; de agregar valor de serviço ao
produto, do ecologicamente correto, motivação de funcionários
e o do sonho de consumo.
Falamos de customização por que é praticamente
impossível existir uma Harley-Davidson igual a outra. Como
se fosse uma impressão digital em aço essas motos
possuem mais de 6 mil itens de acessórios que combinados
entre si permitem bilhões de diferentes combinações,
isso sem falar nas pinturas personalizadas.
No one-to-one podemos afirmar que existe um modelo para cada tipo
de personalidade. Na fidelização, antes da fábrica
criar o Harley Owner Group em 1983, hoje com 100 mil filiados,
seus proprietários já se reuniam para desfrutar juntos
o prazer de pilotar esta jóia, trocar peças, dicas,
fotos, definir passeios etc. Esses mesmos grupos cuidavam para que
uma Harley-Davidson fosse vendida a quem tinha o espírito
e a personalidade compatíveis com os estilos good, bad or
free boy de ser.
Quando você olha para uma Harley-Davidson vem imediatamente
à sua cabeça um conjuntos de sensações
que se transformam em atributos de uma marca que aponta para liberdade
e estilo. Mesmo quem ainda não tem veste a marca e suas roupas
e, quem já teve e não pode mais pilotá-las
por força de alguma limitação física,
sempre que pode, veste nem que seja um discreto boné da marca.
Ter uma máquina dessas era e é assumir publicamente
uma personalidade forte onde os extremos provocados pela capilaridade
com um conjunto de sensações unem no ter e no transparecer
os conceitos do chamado sonho de consumo realizado.
Existem histórias de apaixonados que economizaram durante
anos e até décadas para poder um dia sentar e pilotar
uma Harley e também uma legião de arrependidos que
um dia as tiveram nas mãos e as venderam. Elas também
foram precursoras dos conceitos de merchandising e como ele influencia
no comportamento do consumidor. Basta ver a enorme lista de filmes
onde mocinhos e bandidos apareciam pilotando-as. Antes de ter um
conceito meio cara-de-mau as Harley´s foram bastante requisitadas
pelos meios de comunicação na época do pós-guerra.
Naquele tempo motoqueiro tinha imagem de bom moço. Foi depois
do filme “The Wild Ones” com Marlon Brando, que esta
imagem se transformou.
Bons, maus ou apenas civis querendo curtir novamente o prazer de
pilotar um antigo veiculo militar, não importa, o véu
do conceito Harley-Davidson cobria todas as pessoas que desejavam
explorar as sensações de liberdade. Nesta lista podemos
acrescentar as inúmeras fotos para catálogos e revistas
onde as Harley-Davidson eram coadjuvantes(talvez apenas neste caso)
quando lindas mulheres completamente nuas resolviam fazer, em cima
delas, suas sensuais performances fotográficas. Em alguns
filmes roubou a cena como Sem Destino (1969) com Jane Fonda e Dennis
Hopper e mais recentemente o Exterminador do Futuro (1991) com ninguém
menos que Arnold Schwarzenegger. No Brasil, no final da década
de 50, protagonizou a série de tv Vigilante Rodoviário.
Brinquedo de gente grande, as Harley-Davidson não são
mais reduto de coroas ou executivos maduros bem sucedidos. Elas
já são uma unanimidade entre jovens acima de 18 anos
e entre mulheres que se renderam ao atributo da liberdade-estilo.
Uma mulher numa Harley-Davidson é uma combinação
pra lá de sexy. Em grandes cidades como São Paulo
e Rio, onde o trânsito e a poluição aceleram
o processo que resulta no stress diário é cada vez
maior o número de executivos, profissionais liberais que
as usam para ir e voltar ao trabalho. É um momento de lazer
antes de enfrentar o trabalho. Comenta-se que ir e voltar do trabalho
numa Harley-Davidson ajuda a melhorar o humor, pois você
é obrigado a não pensar em nada, a obrigação
mesmo é só de curtir e ainda colabora para reduzir
os engarrafamentos, economiza combustível e reduz a poluição.
Uma atitude política e ecologicamente corretas.
A força da opinião do cliente e a motivação
de funcionários também tiveram suas bases formatadas
na filosofia de uma Harley-Davidson. Quando estava crescendo e sua
marca valorizando mais e mais a cada mês a empresa vendeu
parte das suas ações para a AMF- American Foundry
& Machine Corporation. Mal sabiam que por causa disso a Harley-Davidson
iria passar pelos seus piores momentos. A ânsia do lucro a
qualquer custo, diante do aumento vertiginoso das encomendas, fez
muitas Harley-Davidson saíram de fábrica com a marca
Harley-Davidson e AMF pintadas no tanque. O fato gerou revolta nos
consumidores que consideravam aquilo um desrespeito. Mas o pior
estava por vir. A pressa fez com que muitas motos fossem fabricadas
com vários problemas, dentre eles, vazamentos constantes
de óleo o que obrigava aos seus proprietários a andar
com kit de ferramentas. Para piorar, as motos japonesas começavam
a entrar e a tomar boa parte do mercado americano, trabalhando exatamente
em cima das falhas da Harley. O pesadelo durou quase 11 anos. Mas
a Harley-Davidson deu a volta por cima. Beals e outros 12 executivos,
incluindo William G. Davidson, neto de William Davidson, tornaram-se
proprietários da Harley-Davidson. O negócio se deu
em 1980. A recompra das ações trouxe de volta em menos
de três anos, a confiabilidade. Mas os bancos ainda ajudariam
a complicar este retorno aos bons tempos. Dois bancos credores da
empresa, numa atitude infeliz provocada por avaliações
erradas, quase faliram a Harley-Davidson ao retirarem seu apoio
financeiro. Mas os outros três bancos, dos cinco que financiaram
a recompra das ações, mantiveram-se fiéis e
tiveram seu dinheiro de volta e muito mais. Os funcionários
puderam comprar as ações da empresa e deixaram de
sentir meros robôs de linha de montagem e ganharam o direito
de parar uma linha caso aparecesse qualquer risco de defeito de
fabricação (isso não se parece com a qualidade
total?). A história da marca, a satisfação
do cliente e a dignidade dos funcionários foi recuperada.
Foram os operários os que mais vibraram pois sempre se viram
como artesãos. Assim, os funcionários, agora acionistas,
voltaram a produzir motos com estilo.
O design também ganhou mais vida. Numa aposta inteligente
os donos da Harley-Davidson investiram num conceito bem diferente
da tendência. Valorizaram um projeto clássico em cores
básicas, tanque em formato de cabeça-de-boi e um incremento
de peças cromadas. Para William G. Davidson eles não
produziam uma moto qualquer, eles fabricavam uma obra de arte sobre
rodas. Segundo ele “se dissermos aos nossos engenheiros para
criar uma motocicleta que fosse ao mesmo tempo rápida e econômica
a um custo razoável, eles nos trariam um modelo igual a todos
os outros já existentes no mercado. Mas nós temos
que fazer uma máquina que mexa com você, assim que
você coloque os olhos nela”. Era o fetiche do design
que aliado ao barulho do seu motor com a força da sua história
que faziam as pessoas sonharem. Ainda hoje é assim. Não
existe moda nem tendência de design. Por fora o visual é
low-tech, antigo, clássico. Por dentro, um motor extremamente
confiável e robusto. É o efeito Harley-Davidson que
faz com que a grande maioria das pessoas parem o que estão
fazendo para olhar para a moto, independente de quem a esteja pilotando.
A sensação que se tem é que para o espírito
de uma Harley o piloto é apenas mais um acessório.
Mas a maior vitória foi quando os seus funcionários
e diretores passaram a ser os donos da marca pela qual tanto lutaram
para preservar e proteger, juntamente com os seus milhares de apaixonados
usuários no mundo todo.
Para William G. Davidson a Harley-Davidson voltou a ser o que sempre
foi: uma grande família.
Por Luís Sucupira
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