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Outubro de 2004
A preparação da grande viagem solo.
O
primeiro passo foi escolher o trajeto, mas antes disso precisava
conhecer a moto em todos os aspectos: pilotagem, mecânica
e limites. Neste último ponto repousa o mais importante.
Decidi pela rota Fortaleza – Salvador por ser uma rota com
alternância de trechos longos e curtos, com estradas movimentadas
e trechos desertos, bons pontos de apoio e pontos sem apoio nenhum,
segura em alguns trecos e horários e insegura quanto a assaltos
em outros trechos e anda por ser um desafio de médio porte
em se tratando de realizá-la solitariamente numa moto de
baixa cilindrada.
Seriam 3.400 quilômetros de aprendizagem, emoção,
liberdade, disciplina e determinação.
Fiz um curso de mecânico profissional, ainda em São
Paulo, pois morava lá e havia retornado a pedido da empresa
havia uns três meses. Consegui o manual de serviços
da moto, uma Mirage 250cc fabricada pela Hyosung e montada no Brasil
pela Kasinski a qual personalizei como uma Harley. O manual de serviços
é aquele que os mecânicos usam para se orientar quanto
a defeitos, reparos, sintomas, regulagens e calibrações.
Passo seguinte foi treinar em trechos curtos de até 250km
nos trechos de ida. Estes treinos ajudaram a posicionar melhor a
coluna, aprender a se defender de trânsito pesado e dos ventos
laterais e frontais, deslocamentos de ar provocados pela passagens
de carros pesados, chuva, descobrir horários bons e os ruins,
praticar a média horária, autonomia, equipamentos
de segurança e ferramental, inclusive peças.
A outra etapa estava relacionada a disciplina. Essa parte estava
ligada a horários e limites para sair, desenvolver, evitar
e parar. Cada etapa desta é muito importante para se atingir
os objetivos. Junto com isso precisava relacionar as peças
de reserva, kit de primeiros socorros e vestuário adequado.
Teria que escolher a tática certa para a estratégia
estabelecida.
Passada a fase de preparação, passei ao segundo passo
que foi estudar detalhadamente a estrada e os trechos para definir
quando e onde parar. Pesquisas
e informações, mapas, meteorologia confiável
com previsão segura para 5 dias e incluir no trecho horas
de parada e um ponto alternativo de pernoite caso uma pane
levasse mais que três horas para ser resolvida, pois uma premissa
seria não rodar à noite. Se isso fosse necessário
o faria em último caso mas apenas para chegar a um lugar
seguro.
Não cair. Não forçar o equipamento. Não
exagerar e não esquecer a disciplina. Não acidentar-se
e acima de tudo chegar vivo e inteiro, tanto eu quanto a moto e
no prazo estabelecido. Era importante lembrar sempre que estava
só e que contava apenas comigo mesmo e com Deus, pois qualquer
outra ajuda poderia ser perigosa de aceitar e se aceitasse e tudo
desse certo seria contar com o fator sorte. Como sorte é
a soma de preparação com oportunidade, estaria tranquilo
se fizesse a minha parte.
Pode
parecer estranho, mas o motociclismo, mesmo em grupo, é um
esporte solitário. Ainda que viaje com uma garupa, quase
nenhum diálogo é trocado fora do estritamente essencial.
É olhar e curtir sem perder a atenção e a concentração.
Costumo dizer que não existe prazer sem proteção
e a liberdade impõe limites e a aventura nada mais é
do que escolher um objetivo, traçar metas e chegar no prazo
acertado. Parece irresponsabilidade, mas a verdadeira aventura é
totalmente formatada na responsabilidade do esportista, no controle
e na visão de que cada etapa alcançada nos conduz
ao objetivo final.
Depois de estudado o mapa e avaliado os trechos, o próximo
movimento seria definir os pontos de parada. Defini que seria possível
andar por 8 ou nove horas seguidas para cobrir trechos de 700km
diariamente.
A minha planilha diária de rotinas estava dividida da seguinte
forma:
Dormir às 21:30
Acordar às 4:30 da madrugada.
60 minutos para higiene pessoal e café da manhã.
30 minutos para arrumar a bagagem, conferir vazamentos, estado dos
pneus, freios, óleo de freio e motor e possíveis falhas.
30 minutos para abastecer a moto e pegar dinheiro se precisar.
30 minutos para estar saindo da região metropolitana da cidade
e assim evitar o trânsito pesado.
Na chegada:
60 minutos para estacionar a moto em local seguro, descarregar a
bagagem e descansar para baixar a adrenalina e sentar as idéias.
60 minutos para lavar e revisar a moto. Conferir parafusos, estado
geral da máquina, reapertos necessários de braçadeiras,
porcas e parafusos. Verificar vazamentos e estado dos pneus.
Mais 60 minutos para higiene pessoal e um bom jantar.
Até as 21:30hs aproveitar para confirmar a meteorologia e
conferir o estado da estrada do dia seguinte conversando com pessoas
que estavam em trânsito no sentido contrário ao meu.
Passar uma mensagem para os amigos da lista informando um breve
resumo do dia.
Dormir bem e acordar no horário. Não esquecer que
amanhã tem mais 08 ou 09 horas de viagem.
Sábado, 29 de janeiro de 2005
Começou a viagem!
Não posso negar que a ansiedade não me deixou dormir
na noite véspera do primeiro dia de viagem. A excitação
era grande e eu não conseguia imaginar outra coisa a não
ser estar na estrada. Misturada a essa sensação estava
a checagem de cada ponto, de cada cuidado e de cada ação.
Levantei na hora
certa. Arrumei a moto e decidi não tomar o café em
casa mas no posto. Acreditava que se saísse de casa logo
e estivesse num posto estaria mais calmo e a ansiedade já
não seria tão grande. Deu certo! Tomei meu café
da manhã no posto. Enquanto abastecia a moto eu conferia
todo equipamento e todos os itens de segurança. Ajustava
mapas e cronômetros e zerava o odômetro. Elaborava as
mensagens para serem enviadas via celular/SMS para a lista de pessoas
que iriam monitorar a viagem.
Enquanto tomava café relembrei todas as etapas que havia
passado, tudo o que foi planejado, todos os detalhes. Era a hora
da verdade! Ainda dava pra desistir, mas eu não pensava nisso.
Subi na moto, fiz uma oração, dei a partida e o motor
falou alto como que pedindo também para chegar logo na estrada.
Preparei a primeira mensagem e disparei. Eram 07 e 30 horas da manhã
de sábado do dia 29 de janeiro de 2005. Um belo dia. Calmo.
Boa parte da cidade ainda dormia e eu sabia que com certeza boa
parte dos colegas que estavam na lista de torpedos também.
Bom, iria acordá-los, mas assim foi pedido. Torpedo enviado.
Em seguida recebo a confirmação de entrega das mensagens
passo a primeira e .... estrada!
No começo andei com um cuidado exagerado, na ponta dos dedos
e das botas, pois a ansiedade poderia estragar tudo. Deveria prestar
atenção na moto, no seu desempenho, na estrada e na
meteorologia. Começar o dia lambuzado de chuva não
é nada agradável.
Saio da cidade e pego a CE 040. Pista dupla, tranqüila. Esta
é um das avenidas de Fortaleza que mais têm acidentes
graves. No caminho ia me perguntando quantos carros ficaram em postes
da noite de sexta para sábado. Apostei em três. Para
minha felicidade eu errara. Apenas um havia acertado sozinho um
poste e pela batida nada mais grave, apenas prejuízos materiais.
Passei a Prainha, Iguape, Cascavel, Beberibe, Parajuru, Fortim e
Aracati. Neste momento decidi que não ia parar para abastecer
e iria tentar chegar com o mesmo tanque em Mossoró no Rio
Grande do Norte. Seriam 260km. Se meus cálculos estivessem
certos, chegaria lá quase na reserva. Ainda era cedo. Na
estrada, perto de Parajuru peguei 1km de chuva isolada. Aquela chuvinha
chata, localizada que cai num só ponto da estrada. Passei
de Aracati e caminhei rumo a Mossoró. Quando vejo a placa
que informa a divisa do Ceará com o Rio Grande do Norte senti
que a viagem estava começando e que daquele ponto em diante
meu planejamento tinha que funcionar. Havia acabado de passar da
entrada de Icapui e alguns quilômetros adiante já estava
no Rio Grande do Norte. O asfalto mudou. Era mais claro e mais parecia
com concreto. Olhei no mapa de navegação e ele me
dizia que faltavam cerca de 50km para chegar a Mossoró. Olhei
o marcador de combustível e ele havia baixado bastante. Conferi
o odômetro. Estava certo, mas eu não sabia quanto de
gasolina realmente havia dentro do tanque. Primeiro susto: será
que errei a autonomia da moto? Será que estava consumindo
muito? Olhei à frente e no mapa em busca de um posto de gasolina,
mas só haveria um em Mossoró. Decidi relaxar e confiar
na minha conta e no meu planejamento. Havia feito e refeito aqueles
cálculos várias vezes e conhecia a máquina.
Era uma outra hora da verdade. E mais: se chegasse na reserva daria
para ficar em pane seca já dentro de Mossoró. Toca
pra frente!. Um retão e
algumas cruzes na estrada mostravam que o sono e os animais
haviam levado algumas pessoas para outra vida. Olho no mato alto
e em qualquer movimentação estranha que pudesse parecer
com animais na pista. Lá na frente uma curva.... estava louco
para encontrar uma placa de sinalização para confirmar
quantos quilômetros faltavam. Feita a curva descortina-se
o anel de contorno com as Placas dizendo Mossoró a 10km e
ainda saídas para Tibau, Areia Branca e Grossos. Não
me contive. Olhei o odômetro e reconferi meus cálculos.
Estavam certos! Podia mesmo confiar! No posto escolhido parei. Desci,
me hidratei, usei o banheiro e comi uma barra de chocolate e tomei
um Night Power para
estimular um pouco mais. Conferi a moto. Estava tudo ok. Abasteci
e refiz os cálculos. Precisaria reabastecer em Açu
para poder chegar com segurança a Natal. Seriam quase 290km
de estrada.
Antes de sair percebi que uma patrulha da polícia passou
pelo posto e como a minha jaqueta camuflada com insígnias
da II Guerra e a moto chamaram a atenção resolveram
parar lá na frente. O sargento da patrulha atravessou o posto
e bem simpático perguntou se era militar. Disse que não.
Ele me disse que não deveria utilizar aquela jaqueta pois
o pessoal ali não gostava de militar e eu poderia ser agredido.
Agradeci e disse a ele que iria tomar cuidado mas que não
iria tirar minha jaqueta. Perguntou se iria pernoitar na cidade.
Disse que não. Neste momento notei que outra viatura chegara.
De longe percebi que falavam de mim. Não dei bola e continuei
a tocar o que estava fazendo. Quando percebeu que eu, apesar de
simpático, não esticava muito a conversa resolveu
despedir-se e foi embora. Antes perguntou se queria escolta até
fora da cidade. Disse que não. Agradeci. Enviei as mensagens
para o grupo, abasteci e fui embora. Tinha mais 290km para rodar
e um calor infernal pela frente. Já eram cerca de 10 horas
da manhã.
Sábado, 29 de janeiro de 2005
Mossoró – Natal: a
nossa Rota 66.
Qualquer semelhança com a famosa e lendária Rota 66
dos Estados Unidos, não é mera coincidência!
È isso mesmo! Este trecho é um teste para qualquer
piloto de moto. A temperatura ambiente em dias claros, de vento
e calor oscila entre 34 e 38 graus. Some-se a isso a temperatura
do corpo recoberto pelas proteções e mais a temperatura
do asfalto que chega a 54 graus ao meio-dia... pronto! Você
está na recepção do que poderia ser o Inferno.
Num carro nada disso é percebido, pois você viaja protegido
pela lataria, teto(sombra) e pelo ar condicionado(se tiver um).
Mas esse é o princípio do motociclismo: controlar
as variáveis e seguir. Adaptar-se rapidamente, sentir o tempo,
o vento e o clima... prever, corrigir. Saber andar e parar. São
290km de asfalto ondulado, mato as vezes alto, muito calor e vários
caminhões no sentido contrário. O vento, na ida, é
sempre contra, como que teimando em dizer a você que prosseguir
é coisa de corajosos, guerreiros... de Guerreiros do Sol!
Os caminhões passam e atrás deles um vento que te
joga pra trás. Um só chacoalhado desses até
que ajuda a acordar e a subir a adrenalina, mas quando passam três,
levar tanta porrada de vento, enche o saco! Mas existe um macete!
Lembra como se faz para se livrar das ondas do mar quando você
resolve entrar além da arrebentação? È
a mesma coisa. Basta abaixar a cabeça e passar por baixo
da onda. Isso mesmo. O vento vem como uma onda que você não
vê, ai você se abaixa e ele passa por cima. Isso! Basta
fazer isso e o efeito acaba.
Mas voltemos a estrada. Como disse, a autonomia da moto não
garantia chegar até Natal sem entrar na reserva. Mandava
meu planejamento reservar quatro litros para as emergências,
pois não tinha espaço para levar dois litros de gasolina
de reserva na moto. Pela média por quilômetro rodado,
cerca de 25 km por litro, daria pra chegar ‘no cheiro’,
como dizem, mas a precaução manda ter pelo menos 100km
de reserva em autonomia. Dois litros no principal e mais dois na
reserva. Por conta disso precisaria abastecer em Açu, que
fica a 70km de Mossoró.
Dizer que motos parecem com aviões, em alguns aspectos, não
é exagero de paixão. É verdade! Autonomia e
reserva são fundamentais e esse é um dos princípios
da aviação além do princípio da redundância.
Encher o tanque e usar dois terços ou a metade sempre. Foi
por ai que eu fui e não errei mesmo quando vi o ponteiro
baixar muito.
Em açu parei para abastecer na bandeira do posto Ipiranga,
mas alguns quilômetros depois percebi que a moto perdeu rendimento
e em algumas vezes falhou. “-Gasolina suja!” Pensei.
Mas era mais que isso. Misturada e talvez batizada. Ai começou
a minha dor de cabeça: rodar pra ver o que acontecia. Estava
depois de Lages, entre o nada e lugar nenhum. Tinha que equalizar
a máquina e reequilibrar a mistura. Menos rica em ar e mais
em combustível para evitar superaquecimento e falhas. Regulagem
feita, em seguida me toquei que o ajuste reduziria a minha autonomia,
mas eu não sabia em quanto. Recalculei de cabeça para
19km por litro e assim estaria em Natal na reserva. Errei dois quilômetros.
Cheguei em Natal quase na reserva. Baixei toda a gasolina batizada
e adicionei um aditivo Bardhall laranja junto com a nova gasolina.
BINGO! Acertei! O curso de mecânico e de pilotagem ajudou
muito. Posso dizer: se pagou. A moto voltou ao normal depois de
alguns quilômetros. Belo motor! Na parada, conheci, no posto,
um casal simpático: senhor e senhora Jorge Blanco, um argentino
que mora em Natal e que possui uma Harley-Davidson. Conversamos
por meia-hora, trocamos cartões e depois partir.
 A
estrada para João Pessoa, na Paraíba é um tapete!
O vento já não era frontal, mas lateral, mas suave.
Muitas subidas e descidas, pista dupla para ultrapassagem, mas um
trecho tranqüilo, mais fresco e menos Rota 66. O visual é
belíssimo, verde, limpo e com cheiro do mato e de cana de
açúcar. Muito comércio na estrada. Artesanato,
frutas, comidas e bebidas. Vendem de tudo. Da carne seca, passando
pelo carneiro, indo até as frutas frescas e uma deliciosa
água de coco. Mas não podia parar para apreciar isso.
Tinha um prazo a cumprir, por opção minha. 180km depois
vejo a placa : João Pessoa a 30km. SHOW! Ia poder descansar
e descer da moto. A bunda doía por conta dos pêlos
que estavam sendo arrancados à força pelo atrito com
a cela e pela posição, mas nada tirava a vontade de
poder rodar 700 km num dia, numa moto. Uma coisa que fiz foi usar
para amaciar um par de luvas Lúmica. Queria amaciar o couro.
Quando cheguei em João Pessoa, a ponta dos meus dedos doía
como se as minhas unhas tivesse sido machucadas, parecia que elas
iam entrar na carne de volta, pela cabeça dos dedos. Mas
as luvas estavam amaciadas. “-Amanhã seriam mais confortáveis.”
Esperava eu. Cheguei em João Pessoa. Aproveitei para curtir
o sol e ver a orla da cidade que escolhi para morar. LINDA! GOSTOSA!
A cidade dos meus sonhos!
Fiquei hospedado na Pousada do Caju. Muito boa e acostumada a receber
motociclistas. O tratamento é diferenciado pois a moto fica
quase dentro do quarto. Moto guardada, bagagem tirada, cerveja aberta.
Hora de avisar a todos da lista, via torpedo, que cheguei inteiro
e em paz e na hora. Eram 15:30 horas.
Cumpri a disciplina de chegada. Conferi tudo, lavei a moto, chequei
todos os parafusos, lubrifiquei e fui ao banho. Que banho! Quase
não consegui sair. Jantei como um rei, pois almocei como
um pobre – só barras de cereais e chocolate. Comer
na estrada dá sono e transfere sangue para o estômago
e diminui reflexos. Barras de cereais e chocolate ajudam a não
perder a concentração. A velha Coca-Cola também
ajuda bastante, mas o que não deve faltar, em cada parada
é uma boa garrafa de água mineral com gás.
Por que com gas? Refresca e hidrata demoradamente além de
retardar a vontade de urinar. Outra proteção e garantir-se
contra o reenvasamento da água. Alguns postos têm o
hábito de preencher a garrafa e não se sabe a procedência.
E mesmo que não seja verdade não vale a pena correr
o riso. Tome refrigerante e água mineral com gás,
mesmo que não goste. É para sua proteção.
Andar de moto com dor de barriga é o fim!
Avaliei o trecho e me dei uma nota. 10! Tudo certo. Tuda a avaliação
e soluções aplicadas foram corretas, tanto em pilotagem
quanto em mecânica.
Liguei a TV. O sono bateu forte. Programei o celular como despertador
e apaguei! Amanhã tinha mais 700 km para vencer. E mais uma
vez sozinho!.
30 de janeiro de 2005
João Pessoa a Aracaju:
Beleza e perigo num dia de domingo.
Amanhece o dia.
Toca o despertador. Me levanto e faço os alongamentos. A
mão já não dói e a bunda nem tanto,
mas tenho que cumprir meu trajeto. Mais 700km até Aracaju
pela trilha do mar, passando pela travessia de balsa entre Penedo,
Al e Neópolis-Se. Meu objetivo é atravessar a Paraíba,
Pernambuco, Alagoas e a metade de Sergipe até Aracajú.
Canaviais, treminhões e ventos de toda ordem. Mas as paisagens
deslumbrantes me esperam. Como dizem, de carro você compõe
e passa pela paisagem. Numa moto, você é a paisagem.
Então, mão no acelerador e ESTRADA!
Antes precisava consertar um curto. O fusível da moto queimou
e fiquei no escuro ou pior: apagado. Uma ligação para
o Jacó, mecânico e o problema foi resolvido à
noite anterior mesmo. Mais não podia viajar sem um fusível
de reserva. Mas como achar uma loja de moto aberta às 7 e
30 da manhã de um domingo em João Pessoa? Bom. Me
deram a dica que perto da rodoviária encontraria uma. Fui.
Não tinha outra alternativa. No caminho encontrei um oficina.
Mistura de ferro velho com oficina, parei e procurei encontrar o
fusível que precisava para reserva.
Uma coisa interessante é que, geralmente, mecânico
de carro não entende de moto e vice-versa. Mas a semelhante
não é distante. Perguntei a ele onde tinha uma sucata
que possuía a caixa de fusíveis intacta. Ele me mostrou
um Chevette 1981. Este Chevette já vinha equipado com os
fusíveis de chapinha diferenciados em cor. Bastou mexer lá
e uns cinco reais e eu tinha mais 5 fusíveis de reserva.
Na dúvida, pois não sabia a causa ainda, coloquei
um fusível de 20 ampéres. Liguei a moto, testei os
faróis e fui! Já eram quase 9 horas da manhã.
Este seria o dia que me daria nota 7 pelo desempenho. Este foi o
dia em que aprendi que excesso de confiança e afobação
podem colocar tudo a perder. Aprendi e reaprendi o autocontrole.
De João Pessoa á Recife é um passeio. São
menos de 110 km de estrada e que pela hora que escolhi e o dia da
semana, estava tudo tranqüilo. Mas a tranqüilidade acaba
quando se chega no anel viário de Recife. Perdi, mesmo sem
errar o caminho e as conexões de pista cerca de 40 minutos
até sair realmente da cidade e entrar na litorânea
que passa pela entrada para Porto de Galinhas.
Trânsito pesado, muitos caminhões e muitos carros de
passeio com destino à praia. Mais tempo perdido. O calor
já começava a incomodar. Resolvi parar para dar um
tempo. Bebi água, lanchei uma barrinha de cereal, abasteci
e estrada! Depois que saí da zona de Porto de Galinhas segui
rumo a São José da Coroa Grande, ainda em PE. Esse
seria o ponto que saberia estar mais perto de 
Maceió,Al. Até lá a estrada é um tapete,
cheia de curva, o que motociclista adora e pouco trânsito.
Até os treminhões(caminhões com duas carretas
próprios para levar cana) estavam de folga. Vi apenas uns
cinco, quando o normal seria ter que ultrapassar uns 20 ou mais.
A cana estava em boa parte colhida.
A tranquilidade que senti com a falta dos treminhões e do
trânsito pesado, mesmo com pista limpa, outro problema tão
ruim apareceu e durou por muitos trechos da estrada: o vento lateral
que corria livre agora que a cana-de-açucar havia sido colhida.
Pancada da direita e da esquerda. Vento transversal à esquerda
e à direita, em diagonal e as vezes as porradas do deslocamento
de ar provocados pelos caminhões e ônibus. Tava na
medida pra cansar. Já havia tomado um susto quando me deslumbrei
com a paisagem e cai na bobagem de dar uma espiadinha. Segundos
que o olhar desviou foram suficientes para me fazer ir ao acostamento,
que tinha buracos e ainda era um curva bem aberta. Andei pelo acostamento
uns cinquenta metros até que consegui encontrar um ponto
de saída pra voltar à estrada. Que susto! Dei um tempo
e segui novamente. Dessa vez só iria olhar em retas e sempre
à frente.
Chego a São
José da Coroa Grande, em PE. Alguns quilômetros depois
seria Alagoas. Era um domingo de sol maravilhoso, um dia lindo e
um banho de mar seria tudo que precisava naquela hora quente.
A estrada à beira-mar!
Abasteci novamente, almocei uma meia barra de chocolate. Àgua
mineral, revisão rápida da moto: parafusos, porcas,
vazamentos, folgas, pneus etc. Pronto! Hora de ir. As costas não
doíam e nem doeram, a cinta abdominal elimina as posturas
erradas, mas a bunda... essa começou a incomodar. Uma paradinha
e tudo melhorava.
Estrada de novo. Até Maceió mais 115 km. No caminho
não resisti às belíssimas paisagens de Alagoas.
Ia sempre vendo o mar e ele estava maravilhosamente pintado de azul
quase emendando com o céu de tão limpo! Parei na estrada
e fiz umas duas fotos. Demais!
Voltei ao acelerador e em pouco tempo estava entrando em Maceió.
Atravessei a orla quase toda. Não precisa dizer que chamei
muita atenção por conta da forma que eu estava vestido
para um dia de domingo ensolarado e quente. Todo mundo de bermuda
e sem camisa, biquinis de todas as cores, cerveja gelada e
aquele maluco(eu) na moto todo vestido passando pela orla numa moto
que parece ter saído de um filme americano. Mais na frente
um desvio. Aos domingos parte da orla é fechada para lazer.
Peguei outro caminho e segui para a praia do Francês. De lá
seriam mais 144 quilômetros que iriam demorar ainda um bom
tempo. Na saída do trânsito engarrafado para a praia
do Francês um outro susto. Um maluco distraiu-se e freiou
bruscamente na minha frente. Estava bem próximo do acostamento,
que dessa vez era de boa qualidade. Rapidamente decidi ir prá
lá para dar espaço de frenagem para o veículo
que vinha atrás de mim. Deu certo. O carro detrás
parou bem perto do outro e eu me sai bem pelo acostamento. Depois,
gentilmente o motorista do carro que estava atrás de mim
freiou e me deu a entrada da pista novamente. Agradeci. Ele fez
um sinal típico dos motociclistas com a mão parcialmente
fechada e apenas os dedos indicador e mindinho abertos. Agradeci
repetindo o mesmo gesto e fui.
Este trecho da estrada é muito bonito, mas é o mais
solitário de todos. Muitas curvas, muito vento e morro pelado
e sem-terra acampados na estrada. Alguns quilômetros adiante
outro susto: numa curva toquei de leve o mata-cachorro. Briguei
comigo. Chamei minha atenção pesadamente por baixo
do capacete cobrando atenção e menos afobação.
Segui rumo a Penedo, Al. Lá ia pegar uma balsa e atravessar
o Velho Chico. No caminho ainda tive tempo para relembrar outra
coisa importante: ler a copa das árvores e tomar cuidado
com os descampados.
Os maiores inimigos do motociclista de estrada são o vento,
o excesso de confiança, óleo na pista e a chuva forte
e principalmente no início. Mas, talvez, o pior de todos
seja mesmo a lufada surpresa de uma rajada de vento. É igual
a escorregar no óleo. Não tem saída: é
chão certo. É o chamado tombo bobo comum de acontecer
em entradas de postos onde transitam muitos veículos pesados.
Atenção nas copas e no chão. Manchas escuras
na pista devem ser evitadas a todo custo. Outra coisa a se observar
são as copas das árvores, principalmente quando, você,
está entrando naqueles morros cortados pela estrada. O vento
faz um cano e hora sobe e hora desce e as vezes faz um redemoinho
bem no meio. A hora que você trafega também pesa pra
piorar o efeito. Eram umas 14 horas e vento estava a mil. Interessante
foi ver na prática uma dica de viagem. Ao entrar num morro
cortado pela estrada o vento jogou para o centro da pista para o
lado oposto. Depois que corrigi o vento agora, ainda dentro do morro,
me jogou para fora. Olhei para a copa de um coqueiro e ele me avisava
pela direção das palhas, como um biruta de aeroporto,
de onde vinha o vento: contrário à tangente da curva
que era para esquerda descendo. Diminuí a marcha e entrei
na curva um pouco abaixado com a velocidade que achei mais segura.
Deu certo. Livrei a pancada do vento que quase não senti
a não ser pela sensação de frescor que ele
trazia.
Alguns quilômetros
adiante vejo umas das mais bonitas paisagens da minha vida:
o Mirante da Praia do Gunga. Parei. Tinham muitos carros parados
fazendo a mesma coisa: apreciando. Resolvi ficar uns minutos a mais
engrossando o grupo que deleitava-se com aquela pintura que só
Deus poderia fazer. Bati uma fotos, tomei bastante água e
voltei a estrada. Mais adiante cheguei a Penedo, Al. Posicionei
a moto na fila pra Balsa e esperei tomando um refrigerante bem gelado
e comendo a última barra de chocolate do dia, pois o que
levava era apenas uma reserva de emergência. O São
Francisco é realmente soberano e acreditam alguns que seja
o ‘coração do Brasil’. Depois do que vi
penso que seja mesmo. Me perguntei: por que não transpor
1% dessa água que vai para o mar, inevitavelmente, para matar
a sede e a fome do Polígono das Secas? Muita maldade e egoísmo.
Se eu tinha alguma dúvida sobre a transposição,
a partir daquele momento, era só certeza.

A balsa chegou. Entram primeiro os carros depois as motos e as bicicletas.
Somos os últimos a entrar e os primeiros a sair. Na balsa
tomei uma água de coco e puder ver o sol se armar avisando
o início do fim da tarde. Dei adeus a Penêdo
e fui no sentido de Sergipe. Estava perto de Aracaju.
Saindo da balsa segui até a BR 101. Confesso que esse não
era o horário que gostaria de pegar essa estrada. Muita gente
voltando das praias e sítios, fim de domingo.... bebedeira,
imprudência. Bom, agora a atenção seria total.
Já perto de Aracaju, na BR 101 encontrei um pessoal meio
maluco andando de moto. Eram as famosas CGs e os pirados estavam
andando deitados no tanque a mais ou menos uns 120km por hora. Só
se ouvia um o som semelhante a um carro de autorama em alta velocidade
a passar por você. Ziiiiimmmimimim..... lá se vai outra.
Deus os proteja e a mim também. Pensei. Chegando em Aracaju,
bem na entrada um engarrafamento por conta de um entroncamento que
nunca ficou pronto. Dois sustos. Um freio brusco, quase uma batida
de dois carros que poderia se transformar num engavetamento de três
ou mais. Fui pelo acostamento seguindo um grupo de motos speed.
Sai rapidamente dali, mas descuidei da altura do asfalto e bati
mais uma vez o mata-cachorro na borda do asfalto que de tão
ondulado, parecia um degrau para quem vinha do acostamento. Já
nem me zanguei mais comigo, apenas tirei mais um ponto da minha
nota de desempenho diário que costumo me dar para cada trecho.
De oito cai para sete e iria me manter ai até chegar ao hotel.
O mata-cachorro suportou bem. Não amassou.
Cheguei no hotel às dezoito horas em ponto. Umas duas horas
atrasado. Atraso que computei ao trânsito em Recife e em Maceió
e parte de Aracaju. Muito carro, muita gente na praia e não
era para menos, pois era um indo domingo de sol.
Lavei a moto, mandei as últimas mensagens e fui lavar a moto.
Bati dois sanduíches e passei uma hora no banho. Conferi
a meteorologia e revisei mentalmente as besteiras do dia e os acertos.
Sete! Essa seria a nota que iria levar. Merecia. Orei e agradeci
a Deus por tudo e pelas lições e fui dormir depois
de ligar o melhor sonífero: a tv. Logo em seguida cai em
sono profundo.
Segunda-feira,
31 de janeiro de 2005
Aracaju a Salvador pela Linha Verde
Um posto longe demais!

Pela manhã
depois de tudo arrumado e de café tomado fui pegar dinheiro
no shopping. Abasteci e ainda no trecho urbano fazia minhas orações
e relembrava os sustos e disse a mim mesmo: Vou tirar um dez hoje!
E foi isso que aconteceu.
Calculei a autonomia e saí em direção a linha
verde. Fiz questão de pegar um horário que não
tinha muito tráfego na estrada pois iria percorrer uns setenta
quilômetros na BR 101 até sair para Linha Verde. A
estrada estava toda boa em todos os trechos que peguei de BR, fato
esse que se confirmaria na viagem de volta. Nenhum buraco. Apenas
alguns que encontrei na parte mais chata da viagem que é
no entroncamento de Recife para João Pessoa antes de sair
para Abreu e Lima. A litorânea é perfeita e linda.
Entrei na Linha Verde e vi a placa “Bem-Vindo à Bahia”.
Já fui muitas vezes à Terra de Todos os Santos a trabalho
e a passeio e não me canso de dizer que lá se somam
todas as diferenças que em outros lugares produziriam a intolerância
e o preconceito. Mas na Bahia o profano e o sagrado são vizinhos,
se cruzam e festejam juntos numa das maiores lições
de tolerância que já vi na vida. Não é
a toa que o carnaval de Salvador é a maior festa popular
do mundo, registrada no Guiness Book. Cerca de três milhões
de pessoas em alguns quilômetros quadrados, uma média
de 3 pessoas por metro quadrado, mais de setenta trios de todas
as tribos, dois circuitos e uma disposição enorme
para a festa. O comércio no carnaval se transforma. Lojas
de roupa, cursos de inglês, sorveterias... tudo vira bar e
camarote por onde passam os trios. Sejam pelo circuito Barra-Ondina
ou pelo circuito Campo Grande tudo vira bar e camarote. Patrimônios
históricos protegidos por tapumes e cercas. Tudo alegria,
organizado e muito profissional. Um grande negócio sob todos
os aspectos e na Bahia, pasmem vocês, eu vi e pude atestar,
o carnaval é levado muito à sério. Quem pensa
que aquela festa toda é uma junção de todas
as irresponsabilidades e descuidos vai queimar a língua.
Baiano gosta sim de trabalhar e de muito trabalho pois organizar
a maior festa de rua do mundo dá, sim, muito trabalho. Tudo
muito organizado, bem policiado. Digo isso por que tive a oportunidade
de conhecer através de meu irmão Jorge Mesquita e
sua guerreira esposa Selma e de Telminha a festa de rua mais organizada
que eu pude participar. Acompanhei o carnaval de vários ângulos
e aspectos. Estive de passagem na pipoca do Chiclete com Banana.
Gente... e ainda dizem que ir de Fortaleza a Savador sozinho numa
moto é perigoso. Perigoso é encarar os manos da pipoca
do Chiclete com Banana. Isso sim! Fiz algumas fotos de lugares que
particularmente amo em Salvador. Tive que esperar a chuva dar uma
trégua, o que levou uns três dias e meio para acontecer.
Em Salvador conheci Dona Neuza, motociclista de espírito,
uma figura rara em bom humor e uma mão santa para tempero.
Caruru? É com ela mesma! Também tive a oportunidade
de me divertir jogando videogame com a turminha do Jorge: Robertinha,
Lalis, Binho e Gabriel mais conhecido como Arquejandomen
por ter um sono de dar inveja a qualquer insone. Também tive
o prazer de conhecer o jovem Igor. Menino maduro para sua idade,
inteligente de quem ganhei uma lembrança e a quem presenteei
com meu bracelete de roqueiro.
Voltemos a Linha Verde. Essa estrada é tudo que um bom motorista
pede. Quase sempre reta, linda, pouco vento lateral e um tapete.
Na estrada vinha fazendo média puxando um pouco mais pois
dava para andar mais rápido. Na ida tirei de Aracaju a Salvador
em quatro horas, mas na volta baixei para três horas e um
minuto. No
caminho me assustei com a falta de posto nas estrada. Não
sabia que só iria encontrar um a oitenta e oito quilômetros
de Salvador. O ponteiro da gasolina baixou muito e tive que refazer
meus cálculos de cabeça para não correr o risco
de uma pane seca. Cálculo vai e cálculo vem e a gasolina
baixando. Me lembrei na minha agonia por baixo do capacete que não
existem postos distantes do outro no Nordeste mais que oitenta quilômetros.
Refiz as contas para saber onde errei, mas estava certo. O último
posto que passei e não abasteci ficou a cinquenta quilômetros
atrás. Assim, mais uns vinte e cinco ou trinta quilômetros
à frente eu encontraria um ou uma patrulha rodoviária.
Sobe e desce morro, passa curva e nada de posto e nem de polícia.
Reduzi a velocidade para aumentar a autonomia. Embaixo do capacete,
dentro da minha agonia, acreditava que não errara e refiz
as contas e confirmei que acabaria a gasolina a cerca de 40 quilômetros
de Salvador. Até lá iria fazer minha parte: reduzir
a velocidade e esperar andando.
Alguns minutos
depois uma patrulha. Parei e bati com a mão na lateral do
tanque. O policial me pergunta se já estava na reserva. Respondi
que não. Ele apontou pra estrada e disse aquilo que esperei
por quilômetros para ouvir: Gasolina a doze quilômetros.
ISSO! Gritei embaixo do capacete. Não havia errado. Mais
um pouco à frente e chego ao posto. Parei por uma meia-hora
para descanso e hidratação. Neste posto encontro um
casal de argentinos descendo de volta para Buenos Aires e que também
passou pelo mesmo susto. Na volta fui descobrir por que do susto.
A placa que avisa que este é o último posto até
quase a divisa com Sergipe estava um quilômetro antes da entrada
do posto e era no sentido contrário.
Depois de ter descansado tirei pra Salvador e fui ao ponto de encontro
combinado com meu irmão Jorge. Cheguei. Desci da moto. Ainda
estava com a adrenalina nas alturas. Descansei em pé e mandei
a mensagem para todos que havia chegado. Imediatamente recebo uma
resposta: era Sara, minha assistente que ficou no meu lugar segurando
os pepinos do setor enquanto eu tirava férias. A mensagem
dizia – Parabéns! Missão cumprida!. Ai eu cai
na real do que tinha feito. Pior: eu teria que voltar para contar
a história mas não sem antes ouvir uns belos carões
da mãe do meu irmão Jorge e da dona Neuza mãe
de Selma pela aventura. Agradeci pelas orações, ajudaram
muito. Foram fundamentais.
Voltar com cuidado pra contar a história. Foi isso que eu
fiz na volta. Vim pela BR o tempo todo, na ponta dos dedos, com
triplo cuidado, tirando nota dez em todos os trechos e etapas para
poder chegar e contar esta história. Na volta meus amigos
motociclistas do motoclube Guerreiros do Sol, do qual faço
parte, Ivan, Danilo, Waldemar e Gomes me deram os parabéns
e logo foi marcada um reunião para contar detalhes. Mas foi
muita coisa e ai decidi escrever. Amadureci muito no meu hobby.
Cresci como piloto e pude atestar que planejar 80% e executar em
205 do tempo é sim um receita de oriental para ocidentais
aprenderem. Eu aprendi e voltei para contar como foi.
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