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Viagem Só (Moto & Estrada - Receita Anti-Stress)
Eu estava passando uma temporada de trabalho em
Campina Grande, Pb. Cansado de usar a moto apenas no percurso
do trabalho, que por sinal estava muito estressante, pois tinha
prazos curtíssimos para ter escaneados todos os questionários
da Região Nordeste do Censo 2000 e não tinha hora
nem dia para ter folga do trabalho. Chegava a trabalhar 18 horas
por dia e não tinha final de semana que não estivesse
analisando e preparando relatórios de produção.
Num sábado de sol, 12/05 de 2001, saí do trabalho
por volta da 1h da tarde e peguei estrada. Sozinho, eu e a Shadow.
Estrada pela estrada, capacete aberto, o velho Ray Ban e o vento
na cara. Sem destino fixo, sem hora para voltar.
Sai na direção de Areia, cidade onde há um
festival anual da cachaça e da rapadura chamado "Breg’Areia"
com muita cornagem e música brega. Estrada simples com muitas
curvas, subidas e descidas, muitas pequenas cidades no caminho.
A primeira parada foi num restaurante chamado Bananal, que já
tinha ouvido falar. Tomei uma latinha de cerveja enquantoestudava
o cardápio. Filét mignon de Bode é a especialidade
da casa. Voltarei.
Na saída vejo estacionada ao lado da Shadow uma Vmax com
um tanque de nitrogênio na lateral do motor. Impressionante
esta motocicleta. Prossigo meu caminho. Velocidade de mais ou menos
80km/h, mais que isso o vento torna o passeio desconfortável,
com os óculos balançando no rosto, atrapalhando a
visão.
Passo pela primeira cidade. Lagoa Seca. Placas de parque ecológico
e convento me chamam a atenção. Depois chego a São
Sebastião da Lagoa da Roça. Nesta cidade há
um Cristo Redentor que me pareceu estar com caxumba e numa pracinha
logo à frente o mesmo Santo ali homenageado corre o risco
de contrair tétano. As flechas em seu peito estão
muito
enferrujadas.
O gostoso é que a cada cidade, o asfalto é interrompido
e temos que rodar no paralelepípedo devagarzinho, vendo e
sendo visto.
O dia está bonito, sol forte nordestino e brisa fresca da
Serra da Borborema. Horizontes imensos me fazem recitar em voz alta
os versos de Drummont: "Mundo vasto mundo, se eu me chamasse
Raimundo, seria uma rima não uma solução. Mundo
vasto mundo, mais vasto ainda é o meu coração".
Viagens solitárias assim, sem compromisso são um verdadeiro
remédio anti-stress. A gente fala, recita e canta o que vier
à cabeça num encontro íntimo consigo mesmo.
Puxa a moto para um lado e para o outro, acompanhando a sensual
sinuosidade da estrada. É preciso não se desconcentrar
da estrada e dos retrovisores. Uma caminhonete me ultrapassa em
alta velocidade me dando um susto. Mais atenção e
menos Drummond camarada!
Passei por um trevo mal sinalizado e fui em frente. A próxima
cidade era Arara. Como a saída não se definia, perguntei
pelo caminho de Areia e descobri que tinha rodados uns 20km fora
do roteiro previsto. Converso uma prosa fiada com o camarada
que me deu a informação e pego o caminho de volta
até o tal trevo. Dali a paisagem que já era bela se
transforma. Entro numa área de preservação
de Mata Atlântica, reserva de Pau do Ferro. Uma beleza! A
mata em alguns trechos se encontra nas copas fazendo um belo túnel
verde na estrada.
Parei numa casinha de taipa onde havia uma placa; Bar da Cícera.
Pedi uma cerveja que veio geladíssima. Uma boa geladeira
devia haver dentro daquela casinha! A meninada se juntou para
olhar a motocicleta, uma menininha de uns seis anos vestindo uns
trapinhos ficou maravilhada quando a coloquei em cima do banco.
Como é fácil ganhar um sorriso de uma criança.
Fico imaginando por quanto tempo essa lembrança ficará
na cabecinha dela.
Dou partida na moto e sigo para Areia, está perto. Começa
uma longa subida já em área urbana, passo pelo campus
da UFPB com sua entrada repleta de bambuzais e entro em Areia.
A cidade tem muitos prédios antigos, alguns impressionam
pela imponência e os sobrados lembram um pouco do Pelourinho
de Salvador. Vou devagar pelos paralelepípedos irregulares
e me deparo com uma cena inédita para mim. O vendedor de
gás é um motociclista em uma CG adaptada para transportar
três botijões, nessa estrutura metálica há
um suporte que leva um sino que o camarada vai tocando pelas ruas.
Eu tentei seguir este vendedor para bater uma foto, mas o cara ia
numa velocidade superior a que a prudência manda numa Shadow
em piso de pedra numa cidade desconhecida. Acho que ele não
queria vender o gás, de tão rápido que andava.
Depois dessa tentativa de perseguição, me vejo diante
de um bar cuja fachada é repleta de caveiras de bois com
enormes chifres. Bar do Chifre. Estacionei a moto na entrada, fiz
uma foto e entrei. Dentro também há muitas caveiras
chifrudas pintadas de amarelo com as mais diversas inscrições
sobre cornos. Foi divertido tomar uma cervejinha acompanhada de
queijo de qualho assado lendo essas frases. Cinco horas da tarde
saio de Areia de volta para Campina Grande, me olho no retrovisor
e vejo a minha cara de sempre, mas noto, em algum traço,
um sorriso de quem está de bem com o mundo.
Luiz Almeida
Campina Grande - Pb.
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