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Viajar é Preciso
Luiz Almeida
Sim, viajar é preciso, mas, contrariando o poeta, para viajar,
viver é mais do que preciso. Pilotar uma motocicleta em qualquer
lugar é sempre um grande prazer. Porém, é na
estrada, com um imenso horizonte à frente, que o motociclista
se realiza. É onde nos sentimos integrados à paisagem,
é onde percebemos o quanto somos frágeis e, ao mesmo
tempo, gigantes montados nestas máquinas maravilhosas que
são as motocicletas.
A solidão do capacete é a mesma,
tanto faz viajar em grupo ou sozinho. Nas duas situações,
há vantagens e desvantagens. Viajar em grupo nos dá
mais segurança e sempre estamos ao lado de amigos para fazer
comentários ou observações. Sozinho, anda-se
na velocidade que se quer e pode-se parar aonde bem entender, sem
dar satisfação a ninguém. Tudo o que se vê
é guardado para si, como um encontro consigo próprio.
Também fica mais fácil interagir com as pessoas que
vamos encontrando pelo caminho. Por fim, há inúmeras
vantagens e desvantagens em cada caso.
Em grupo, na estrada, além de muitas outras
regras de condução e segurança, recomendo que
se faça uma corrente cujos elos são os faróis
e os retrovisores. O motociclista que está à frente
é responsável pelo que vem logo atrás, e assim
sucessivamente, e deve ter sempre o farol deste em seu retrovisor.
Assim, caso aconteça um parar, todos param, não deixando
ninguém para trás.
Para curtir este prazer em segurança e sem
surpresas desagradáveis é preciso, além de
seguir as normas gerais de segurança na estrada, ficar atento
a animais na pista, coisa comum nas estradas nordestinas e ter muito
cuidado com buracos e irregularidades no asfalto, uma praga que
inferniza todos os usuários das estradas brasileiras. A velocidade
deve ser compatível com as condições climáticas,
com o estado de conservação da estrada. Deve ser compatível
com o tipo e a cilindrada da moto e, antes de tudo, deve ser compatível
com a experiência do piloto, isto sem falar nas placas indicativas
de velocidade máxima.
Cuidado com os acostamentos É dali que surgem os animais
e veículos vindos de estradas secundárias, onde há
sujeira e desníveis. Evite pilotar muito à direita
da pista, pois nesta posição tem-se pouca margem para
manobras de emergência e certamente será ultrapassado
por carros e caminhões sem que estes façam a manobra
pela pista da esquerda, deixando o motociclista imprensado entre
o veículo que ultrapassa e o acostamento, isto quando não
o obriga a ir para fora da estrada. O melhor posicionamento é
na faixa mais ao centro da pista, por onde passa a roda esquerda
dos carros. Claro que, ao se cruzar veículos grandes, devemos
nos posicionar mais à direita evitando a turbulência.
Eu costumo me abaixar sobre o tanque nestes momentos de turbulência,
assim protejo-me de eventuais pedriscos e poeira.
Muitas vezes, vemos enormes marcas de freadas no
asfalto em locais que aparentemente não teriam motivos para
tal. Claro que podem ter sido causadas por erros de ultrapassagens
dentre outras coisas, porém alerto que estas marcas de pneus
também são fortes indicativos de presença de
animais na pista, portanto, ao vê-las, redobre a atenção.
Cuidados nas ultrapassagens. Para ganhar alguns
segundos na estrada, muitos colocam, irracionalmente, a preciosa
vida em risco. Hoje, a impressão que tenho é que as
faixas contínuas informando a proibição de
ultrapassagem estão sendo feitas de acordo com a aceleração
de carros 1000. Mesmo assim, deve haver outros fatores que nós
não conhecemos (pedestres, entroncamentos com estradas vicinais
dentre outros) que devem ter feito com que os técnicos tenham
definido a localização e o comprimento daquelas faixas,
portanto, o mais seguro é ter paciência e obedecê-las.
Caso a monotonia de alguma estrada esteja fazendo
com que você acelere mais forte, procure não olhar
para o odômetro ou para o relógio, lembre-se de que
você está na estrada com a sua motocicleta e que isto
em si, já é um grande prazer. Cante ou recite versos
dentro do capacete – converse consigo mesmo, encontre-se consigo
mesmo. Lembre-se de que há sempre novas paisagens por mais
reta que seja a estrada e que, assim como os lendários de
- Easy Riders -, numa cena carregada de simbolismo, nós também,
tiramos o relógio do pulso e o deixamos no acostamento logo
no início da viagem.
Não deixe para fazer revisão na última
hora. A revisão deve ser feita por mecânico de confiança
(de preferência com a gente estando junto) com pelo menos
uma semana antes da viagem. Neste espaço de tempo deve-se
rodar com a motocicleta verificando se tudo foi feito corretamente
e que nada vai falhar na estrada. É muito chato ficar no
prego por causa de um pequeno parafuso que ficou solto dentro do
carburador ou até mesmo, perceber, tarde demais, que não
foi colocado óleo no motor...
Viaja-se de motocicleta para curtir a vida, jamais para colocá-la em risco.
As Estradas estão aí, nos veremos nelas.
Luiz Almeida é motociclista há 29 anos |
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